Redes sociais podem baratear campanhas em até 26%, revela estudo sobre o custo do voto na política

Levantamento do Legisla Brasil aponta diferenças expressivas no custo por voto entre parlamentares com perfis digitais distintos. Especialistas e pesquisas sobre comunicação política mostram, porém, que seguidores não são garantia de votos nas urnas.
As redes sociais deixaram de ser apenas vitrines para políticos e se transformaram em ferramentas estratégicas de comunicação eleitoral. Com a possibilidade de alcançar milhares de pessoas por meio de vídeos, publicações e transmissões ao vivo, a presença digital pode ajudar candidaturas a ampliar sua visibilidade e reduzir a dependência de formatos tradicionais de campanha.
Um estudo divulgado pelo Legisla Brasil sobre as eleições de 2026 chama a atenção para essa relação entre popularidade na internet e custo por voto. Segundo os dados apresentados pelo instituto, ter dez vezes mais seguidores está associado a um custo por voto cerca de 26% menor quando são comparados deputados com idade, estado e trajetória política semelhantes.
O levantamento traz um debate importante para o cenário eleitoral brasileiro: em que medida a audiência digital pode representar uma vantagem competitiva para quem disputa uma vaga no Legislativo?
Mais seguidores, menor custo por voto?
Os exemplos apresentados pelo Legisla Brasil mostram diferenças expressivas entre parlamentares com perfis distintos nas redes sociais.
Entre os casos destacados estão Enrico Misasi, do MDB de São Paulo, de 32 anos, que recebeu 106.225 votos e tinha aproximadamente 82,5 mil seguidores. O custo por voto apresentado no levantamento foi de R$ 15,20.
Na comparação, Erika Hilton, do PSOL de São Paulo, de 33 anos, recebeu 1.596.472 votos e contava com cerca de 7 milhões de seguidores. O custo por voto indicado foi de R$ 1,02.
Outro exemplo reúne Thiago Ganem, do PL de Minas Gerais, de 36 anos, com 42.718 votos e aproximadamente 65,8 mil seguidores, cujo custo por voto foi de R$ 52,90. Já Pedro Rousseff, do PT de Minas Gerais, de 26 anos, obteve 118.567 votos e tinha cerca de 1,3 milhão de seguidores, com custo de R$ 9,28 por voto.
Os números ilustram como candidaturas com diferentes níveis de presença digital podem apresentar resultados financeiros distintos. Entretanto, os casos individuais não comprovam que o número de seguidores, isoladamente, seja responsável pela diferença no desempenho eleitoral.
O que dizem os dados sobre o custo das campanhas?
Outros levantamentos ajudam a dimensionar o peso financeiro das disputas eleitorais. Um estudo do Radar do Voto, publicado em 16 de outubro de 2026 com dados declarados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), analisou 16.479 campanhas e identificou uma mediana de R$ 21 por voto entre os deputados federais eleitos. Entre os candidatos a deputado federal que não conseguiram se eleger, a mediana foi de R$ 70,16 por voto. https://radardovoto.com/estudos/custo-por-voto-2026
A mediana representa o valor central de um conjunto de resultados, com metade dos casos abaixo e metade acima desse número.
É importante observar que esse levantamento utiliza a arrecadação declarada, e não apenas os gastos efetivamente realizados, porque as despesas ainda estavam incompletas na data de referência. Portanto, os números não devem ser confundidos com o custo definitivo de cada candidatura.
O resultado reforça que arrecadar mais dinheiro não significa necessariamente conquistar mais votos. A eficiência da campanha depende também da capacidade de transformar os recursos disponíveis em reconhecimento público, mobilização e apoio eleitoral.
A internet mudou a lógica das campanhas políticas
O crescimento das plataformas digitais modificou a maneira como candidatos conversam com eleitores. Antes concentrada em comícios, materiais impressos, rádio e televisão, a comunicação eleitoral passou a incorporar vídeos curtos, transmissões ao vivo, conteúdos compartilháveis e interação direta com o público.
Essa transformação permite que candidatos construam uma audiência própria e mantenham contato frequente com seus apoiadores. Quando há engajamento real, o conteúdo pode circular organicamente, alcançando pessoas sem que seja necessário pagar por cada visualização.
Por outro lado, construir uma presença digital relevante exige planejamento, produção de conteúdo, profissionais especializados e acompanhamento de resultados. Uma campanha pode investir em equipamentos, gravações, edição, publicidade e equipes de comunicação mesmo quando boa parte do alcance obtido não é paga diretamente às plataformas.
O custo de manter uma estrutura digital, portanto, não desaparece. Ele pode mudar de formato e apresentar resultados diferentes conforme a estratégia adotada.
Seguidores não são sinônimo de votos
Apesar da associação identificada pelo Legisla Brasil, a relação entre popularidade digital e desempenho eleitoral precisa ser analisada com cautela.
Uma pesquisa da Escola de Comunicação, Mídia e Informação da Fundação Getulio Vargas (FGV ECMI), que examinou 75.335 publicações no Facebook de 499 deputados federais eleitos em 2022, não identificou uma correlação direta entre o desempenho dos parlamentares nas urnas e o volume de interações nas plataformas. O estudo demonstra que a atividade digital, por si só, não explica o resultado eleitoral. https://repositorio.fgv.br/bitstreams/55930b23-8d04-44bc-a287-94f243da4326/download
Além disso, seguidores podem estar distribuídos por diferentes cidades e estados, enquanto determinadas eleições dependem de bases eleitorais concentradas territorialmente. Também há diferenças no reconhecimento do candidato, na estrutura partidária, na atuação presencial e na capacidade de mobilizar eleitores.
Uma audiência numerosa pode ampliar o alcance de uma mensagem, mas não garante que as pessoas que acompanham um perfil compareçam às urnas ou votem naquele candidato.
Transparência e fiscalização continuam essenciais
O uso das redes sociais também precisa respeitar as regras eleitorais. O TSE mantém sistemas públicos para consulta das receitas e despesas das candidaturas, incluindo os recursos empregados na propaganda e no impulsionamento de conteúdos.
A legislação eleitoral prevê o registro de despesas com propaganda e publicidade, inclusive gastos relacionados à internet. O impulsionamento de propaganda eleitoral está sujeito a condições específicas, como a contratação pelos agentes autorizados e a identificação do conteúdo patrocinado. https://www.tse.jus.br/legislacao/codigo-eleitoral/lei-das-eleicoes/lei-das-eleicoes-lei-nb0-9.504-de-30-de-setembro-de-1997
O Ministério Público Federal também destacou, em orientação publicada em setembro de 2026, a necessidade de observar as regras aplicáveis à propaganda eleitoral na internet, inclusive aquelas relacionadas ao uso de inteligência artificial e ao impulsionamento. https://www.mpf.mp.br/o-mpf/unidades/procuradoria-geral-da-republica-pgr/noticias/eleicoes-2026-saiba-o-que-e-permitido-e-proibido-na-propaganda-eleitoral-pela-internet
O futuro das campanhas passa pela estratégia, não apenas pelos números
Os dados apresentados pelo Legisla Brasil reforçam que as redes sociais podem representar uma vantagem importante na disputa eleitoral, especialmente para candidaturas capazes de transformar audiência em mobilização e reconhecimento público.
Entretanto, o sucesso de uma campanha não pode ser medido apenas pela quantidade de seguidores ou pelo custo financeiro atribuído a cada voto. A análise também precisa considerar a origem dos recursos, a estrutura partidária, a presença territorial, a qualidade da comunicação e o vínculo construído com a população.
No fim das contas, a internet pode ajudar um candidato a chegar mais longe, mas a conversão desse alcance em votos depende de uma combinação de fatores políticos, sociais e estratégicos. A disputa eleitoral continua acontecendo nas redes, nas ruas e, principalmente, na relação entre representantes e eleitores.
Fontes: Legisla Brasil, TSE, Radar do Voto, FGV ECMI e Ministério Público Federal.
Clique aqui e siga o Azulinho FM no Facebook e no Instagram. Faça parte do Canal no WhatsApp e receba notícias direto em seu celular📲
Qual a sua opinião sobre isso? Comente essa matéria em: @azulinhofm no Instagram
