Quem Daniel Vorcaro não “comprou”?

Do Congresso ao Supremo, passando por campanhas, escritórios de advocacia, empresários e familiares de autoridades, o escândalo do Banco Master revela uma rede de relações que atravessa diferentes campos do poder brasileiro
Poucos nomes conseguiram aparecer simultaneamente em tantos ambientes de poder quanto o de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. À medida que a Polícia Federal avança na investigação e novas mensagens, documentos e movimentações financeiras vêm a público, uma pergunta passou a ecoar nos bastidores de Brasília: até onde chegava a influência de Vorcaro?
A resposta ainda está sendo construída pelas autoridades, mas o que já veio a público revela uma extensa rede de contatos, negócios, pagamentos, relações políticas e aproximações com figuras de enorme influência no país.
E é justamente por isso que a pergunta que dá título a esta reportagem ganhou força: quem Daniel Vorcaro não comprou?
A expressão, porém, precisa ser tratada com cautela. Nem toda pessoa que aparece nos documentos foi “comprada”, participou de irregularidades ou sequer é investigada. Em muitos casos, trata-se de uma relação comercial, um contato telefônico, uma reunião, uma amizade ou uma prestação de serviços.
O que chama atenção é a dimensão da rede.
O Supremo entrou no centro do caso
Um dos capítulos mais explosivos envolve o ministro Alexandre de Moraes e sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes.
Mensagens recuperadas pela Polícia Federal indicam que Vorcaro mantinha comunicação com Moraes e buscava sua interlocução em momentos delicados. A PF também encontrou metadados indicando que Moraes editou uma minuta de contrato entre o Banco Master e o escritório de sua esposa, em um acordo que previa pagamentos milionários.
O caso ganhou ainda mais repercussão porque as mensagens sugerem que Vorcaro tentava utilizar sua proximidade com autoridades para lidar com problemas envolvendo investigações e órgãos públicos.
Outro ministro do STF que aparece na rede é Dias Toffoli, principalmente por relações envolvendo seus familiares e negócios ligados ao grupo de Vorcaro.
Também há referências a Kassio Nunes Marques, cujo filho, Kevin Marques, aparece relacionado a pagamentos investigados.
O STF, portanto, acabou sendo colocado no centro de uma crise que ultrapassou a esfera financeira e passou a atingir diretamente a imagem da mais alta Corte do país.
No Congresso, Vorcaro também cultivou aliados
Se no Judiciário os vínculos chamam atenção, no Congresso eles são ainda mais numerosos.
Um dos nomes mais importantes é o senador Ciro Nogueira.
Mensagens e documentos analisados pela PF apontaram pagamentos e uma relação próxima entre Vorcaro e o parlamentar. O nome de Ciro também aparece associado à chamada “Emenda Master”, proposta que, segundo mensagens atribuídas a Vorcaro, poderia beneficiar bancos médios.
Outro nome de peso é Flávio Bolsonaro.
O senador reconheceu ter negociado com Vorcaro recursos para o projeto cinematográfico Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro. A dimensão dos valores tornou o episódio um dos principais pontos de pressão política sobre o parlamentar.
E as revelações continuam. Reportagem publicada nesta semana apontou que Vorcaro teria feito um novo repasse de R$ 8,5 milhões para estrutura relacionada ao filme, mesmo depois de Flávio Bolsonaro afirmar que os pagamentos haviam terminado.
Ou seja: enquanto Flávio passou a utilizar politicamente as revelações envolvendo Vorcaro e Alexandre de Moraes, documentos também expuseram sua própria relação financeira com o banqueiro.
A lista de contatos é ainda maior
A Polícia Federal identificou no celular de Vorcaro contatos de 18 deputados e ex-deputados.
Entre os nomes estão:
Arthur Lira, Hugo Motta, Aguinaldo Ribeiro, Altineu Côrtes, Bilac Pinto, Diego Coronel, Doutor Luizinho, Fausto Pinato, João Carlos Bacelar, Marcelo Álvaro Antônio, Márcio Marinho, Nikolas Ferreira, Paulo Abi-Ackel, Fábio Mitidieri, Flávia Arruda, Lucas Gonzalez, Rodrigo Maia e Vinicius Poit.
Mas aqui existe uma diferença fundamental: ter o telefone registrado no celular de Vorcaro não significa ter participado do esquema.
A agenda de um banqueiro pode reunir políticos, empresários, advogados, jornalistas e dezenas de outras pessoas. O que precisa ser investigado é a natureza de cada relação.
A política baiana também aparece no mapa
A rede de Vorcaro alcança ainda nomes importantes da política baiana.
ACM Neto, ex-prefeito de Salvador, aparece em documentos relacionados a pagamentos milionários feitos por empresas ligadas ao Banco Master e à Reag. A movimentação chamou a atenção de órgãos de investigação.
Agora, o caso ganhou um novo capítulo.
João Carlos Mansur, fundador da Reag Investimentos, firmou acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República. O acordo, que ainda depende de homologação judicial, tem como principal alvo as operações envolvendo Daniel Vorcaro.
Mansur também teria apresentado informações envolvendo políticos baianos, entre eles ACM Neto e Jaques Wagner.
O acordo pode ser uma das peças capazes de ampliar significativamente o mapa de relações do caso.
Do PT ao bolsonarismo
Talvez um dos aspectos mais politicamente explosivos do escândalo seja que a rede de relações de Vorcaro não parece respeitar uma única corrente ideológica.
De um lado aparecem figuras ligadas ao bolsonarismo. Do outro, nomes associados ao centro e à esquerda.
Jaques Wagner e Rui Costa, por exemplo, aparecem em documentos relacionados à rede de relações do grupo.
Ao mesmo tempo, nomes como Flávio Bolsonaro, Arthur Lira, Ciro Nogueira, Hugo Motta e outros parlamentares ligados à direita aparecem em diferentes contextos.
Isso torna o caso particularmente incômodo para o sistema político.
Vorcaro não parecia interessado apenas em um partido.
Parecia interessado em ter portas abertas.
Até a família de políticos entrou na órbita
A investigação também chegou aos familiares de autoridades.
O filho do ministro Kassio Nunes Marques, Kevin Marques, aparece relacionado a pagamentos.
Os irmãos de Dias Toffoli também foram associados a negócios envolvendo empreendimento que teve participação de estrutura ligada ao grupo de Vorcaro.
E há o caso da família Ratinho.
Uma empresa que tem entre seus sócios o apresentador Ratinho e o governador do Paraná, Ratinho Junior, recebeu R$ 1,68 milhão do Banco Master em um contrato publicitário. O Grupo Massa afirmou que se tratava de uma relação exclusivamente comercial e que não havia, naquele momento, questionamentos públicos sobre a idoneidade do banco.
Mais uma vez, pagamento comercial não é sinônimo de corrupção.
Mas, dentro de uma investigação que tenta compreender como Vorcaro construiu sua rede de influência, cada relação passa a ser analisada.
Ex-ministros, empresários e escritórios
O dinheiro do Master também alcançou uma extensa lista de escritórios e empresas ligados a figuras conhecidas da política e do poder.
Entre os nomes que apareceram em documentos estão Michel Temer, Guido Mantega, Henrique Meirelles e Ricardo Lewandowski.
Também aparecem nomes como Fábio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação do governo Bolsonaro, e Ronaldo Bento, ex-ministro da Cidadania.
A questão central não é simplesmente “quem recebeu dinheiro do Master?”.
A pergunta mais importante é:
por que recebeu, quanto recebeu, por qual serviço, em que período e qual era a relação daquela pessoa com Vorcaro?
É isso que a investigação precisa responder.
O banqueiro que construiu uma rede de influência
O que começa a aparecer no caso Master é algo maior do que uma simples investigação sobre fraude bancária.
É o retrato de como dinheiro, poder político, influência empresarial, advocacia e relações pessoais podem se cruzar em Brasília.
Vorcaro circulava entre banqueiros, políticos, ministros, empresários, advogados e pessoas próximas ao poder.
E, conforme o conteúdo de seu celular é recuperado, a impressão é de que ainda existem muitas peças desse quebra-cabeça escondidas.
A própria descoberta de mensagens apagadas mostra o tamanho do material que os investigadores estão analisando. A PF conseguiu recuperar comunicações que Vorcaro tentava ocultar utilizando recursos como mensagens de visualização única e imagens enviadas pelo WhatsApp.
E agora vem a delação
A colaboração de João Carlos Mansur pode mudar novamente o cenário.
Segundo as informações divulgadas nesta quinta-feira, 3 de setembro, a PGR assinou o acordo com o fundador da Reag, considerado o primeiro acordo de delação relacionado diretamente à Operação Compliance Zero. O material foi encaminhado ao STF para homologação.
Se a delação for homologada e as provas forem consideradas válidas, novos nomes, negócios e relações podem surgir.
E talvez seja justamente aí que a pergunta do título ganhe uma resposta mais clara.
Afinal, quem Daniel Vorcaro não comprou?
Talvez essa seja a pergunta errada.
A pergunta correta pode ser outra:
quantas portas do poder brasileiro Daniel Vorcaro conseguiu abrir?
Porque, até agora, a investigação já encontrou portas no Congresso, no Judiciário, no empresariado, na publicidade, no mercado financeiro e no entorno de diferentes grupos políticos.
E o mais impressionante é que o mapa ainda não está completo.
O caso Master está longe de terminar.
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