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Pazolini herda um Espírito Santo bilionário, e enfrentará um desafio: poucos prefeitos aliados e problemas que desafiam o Estado

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Eleito com 52,17% dos votos válidos, Lorenzo Pazolini derrotou um adversário apoiado por 65 dos 78 prefeitos capixabas. Agora, terá de transformar a força fiscal do Estado em melhorias na segurança, na saúde, na educação e no desenvolvimento regional.

O Espírito Santo vive uma mudança política que coloca à prova a capacidade de articulação do novo governador eleito, Lorenzo Pazolini (Republicanos). Ex-prefeito de Vitória, ele venceu Ricardo Ferraço (MDB) no segundo turno das eleições de domingo, 25 de outubro, com 1.151.818 votos, equivalentes a 52,17% dos votos válidos, contra 47,83% do adversário. O resultado encerra a tentativa de continuidade do grupo político liderado pelo ex-governador Renato Casagrande (PSB) e abre uma nova etapa na administração estadual.

A vitória, entretanto, vem acompanhada de um desafio que vai além das urnas. Pazolini encontrará um Estado com contas públicas equilibradas, capacidade de investimento e instrumentos financeiros estratégicos, mas também precisará enfrentar problemas persistentes em áreas essenciais. Além disso, terá de construir uma rede de apoio político entre prefeitos, deputados e outras lideranças, em um cenário no qual seu adversário contava com uma vantagem expressiva no apoio dos chefes dos Executivos municipais.

Vitória nas urnas, desvantagem na articulação política

Um dos dados mais relevantes da disputa foi a diferença entre a força eleitoral de Pazolini e a distribuição dos apoios políticos durante a campanha.

Levantamento publicado por A Gazeta, em setembro, mostrou que 65 dos 78 prefeitos do Espírito Santo declaravam apoio a Ricardo Ferraço. Naquele momento, apenas dois prefeitos haviam declarado apoio a Pazolini: Cris Samorini, de Vitória, e João Paulo Nali, de Castelo. Outros gestores não haviam definido posição ou não responderam à consulta, portanto não é possível atribuir a todos eles um alinhamento político específico.

O quadro evidenciava a força da articulação municipal construída pelo grupo governista. Ricardo Ferraço disputava a reeleição com o apoio de Casagrande e de uma ampla aliança partidária, sustentada também pela relação administrativa entre o Governo do Estado e as prefeituras.

A proximidade entre governos estaduais e municipais não é apenas eleitoral. Obras, convênios, investimentos em infraestrutura, repasses e programas públicos tornam o relacionamento entre governador e prefeitos uma peça importante da administração.

Mesmo diante dessa estrutura, Pazolini venceu. O resultado demonstra que a maioria dos apoios políticos declarados aos prefeitos não foi suficiente para garantir a continuidade do grupo que comandava o Estado.

O desafio agora é transformar a vitória eleitoral em capacidade de governar. Sem uma base municipal consolidada, o novo governador precisará estabelecer canais permanentes de diálogo com os 78 municípios, inclusive com aqueles cujos gestores apoiaram seu adversário.

A estratégia poderá exigir pragmatismo: manter projetos que apresentem bons resultados, rever iniciativas quando necessário e construir acordos administrativos sem transformar diferenças partidárias em obstáculos à prestação de serviços públicos.

Um Estado com contas equilibradas e capacidade de investimento

Se a articulação política representa uma das principais dificuldades do novo governo, a situação fiscal do Espírito Santo aparece como um dos seus maiores ativos.

Os dados oficiais da Secretaria de Estado da Fazenda mostram que o Estado arrecadou R$ 31,9 bilhões em 2025, crescimento nominal de 9,4% em relação ao ano anterior. No mesmo exercício, foram destinados R$ 5,1 bilhões a investimentos com recursos próprios, o maior volume da série histórica estadual até então.

Entre 2019 e 2025, os investimentos estaduais somaram R$ 22,8 bilhões, segundo a Fazenda. O desempenho foi acompanhado por indicadores de endividamento favoráveis e pela manutenção dos limites legais de despesas.

Outro indicador importante é a poupança corrente, que alcançou 21,1% da Receita Corrente Líquida, segundo os dados divulgados pelo governo. Já a dívida consolidada líquida ficou em -52,5% da receita corrente líquida em 2025. O resultado negativo indica uma posição líquida credora, considerando os critérios contábeis utilizados no cálculo.

Na prática, esse cenário oferece ao Espírito Santo uma margem de segurança financeira superior à de muitos governos estaduais endividados. A capacidade de financiar obras com recursos próprios reduz a dependência de empréstimos e pode facilitar a continuidade de investimentos em áreas estratégicas.

O Estado também cumpriu os mínimos constitucionais de aplicação em saúde e educação em 2025, destinando 16,46% das receitas de impostos à saúde e 25,28% à educação.

Mas há uma distinção fundamental: equilíbrio fiscal não significa, automaticamente, serviços públicos de qualidade em todas as regiões. O desafio de Pazolini será garantir que a capacidade financeira se traduza em atendimento mais rápido, escolas melhores, redução da violência, infraestrutura adequada e oportunidades econômicas para a população.

Fundo Soberano: uma reserva estratégica para o futuro

Entre os instrumentos financeiros mais importantes do Espírito Santo está o Fundo Soberano Estadual, conhecido como FUNSES, criado em 2019 pela Lei Complementar nº 914.

O mecanismo foi estruturado para administrar recursos relacionados às receitas da exploração de petróleo e gás natural, com dois objetivos centrais: proteger as finanças estaduais contra oscilações dessas receitas e estimular o desenvolvimento econômico sustentável.

De acordo com a publicação Gestão Fiscal do Espírito Santo 2025, da Secretaria da Fazenda, o fundo apresentava saldo de R$ 2,36 bilhões em 31 de dezembro de 2025, equivalente a aproximadamente 8% da Receita Corrente Líquida estadual. O documento também registrava mais de R$ 677 milhões em rendimentos acumulados.

Além da formação de poupança de longo prazo, o fundo opera instrumentos de investimento destinados a estimular empresas, inovação e atividades econômicas estratégicas.

Entre as iniciativas estão:

  • FUNSES 1: fundo de participação voltado ao desenvolvimento de empresas inovadoras e startups, com subscrição inicial de R$ 250 milhões.
  • FUNSES 2: programa de desenvolvimento empresarial com foco em critérios ambientais, sociais e de governança, também com dotação inicial de R$ 250 milhões.
  • FUNSES 3: iniciativa voltada ao financiamento de projetos de descarbonização da economia capixaba, com previsão de subscrição de R$ 500 milhões pelo fundo na estrutura anunciada.

Esses valores correspondem às dotações ou subscrições anunciadas para os instrumentos, não necessariamente a desembolsos já realizados. A execução de cada iniciativa precisa ser acompanhada por meio dos relatórios de gestão e dos resultados efetivamente entregues.

O fundo também recebeu reconhecimento internacional. Segundo o relatório de administração referente a 2024, o FUNSES foi classificado como o terceiro melhor do mundo e o primeiro da América Latina em um estudo que avaliou 100 fundos soberanos de 69 países, considerando transparência, estrutura e governança.

Para a nova administração, o desafio será preservar a finalidade de longo prazo do fundo, ampliar a transparência dos investimentos e demonstrar os efeitos concretos dos recursos sobre a economia e o desenvolvimento regional.

A reserva não deve ser confundida com dinheiro livre para custear qualquer despesa corrente. Sua utilização precisa respeitar as regras de governança e os objetivos legais que orientam sua atuação.

Ranking do CLP mostra força administrativa, mas também fragilidades

O desempenho do Espírito Santo no Ranking de Competitividade dos Estados, elaborado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), ajuda a dimensionar o contraste entre os avanços institucionais e os problemas que continuam sem solução.

Na edição de 2026, o Estado aparece na primeira posição nacional no indicador de Gestão Pública e foi apontado como o que mais avançou na dimensão econômica nos três anos analisados, de 2023 a 2025. Os resultados reforçam a posição capixaba em eficiência administrativa e organização fiscal.

O Estado também apresenta resultados positivos em infraestrutura e sustentabilidade ambiental. Na edição de 2025 do ranking geral, ocupou a sétima posição nacional, com destaque para a liderança em solidez fiscal e a segunda colocação em infraestrutura.

Entretanto, a edição de 2026 do levantamento, divulgada em agosto, colocou o Espírito Santo na quinta posição geral. A diferença entre as edições demonstra que os resultados dependem da metodologia, dos indicadores e das bases de dados utilizados em cada ano.

A segurança pública aparece como uma das maiores fragilidades. No recorte de 2026, o Estado ocupou a 22ª posição nesse pilar, apesar de avanços registrados em alguns indicadores de violência letal.

A posição revela que o bom desempenho fiscal e administrativo não elimina problemas relacionados à segurança, à prevenção da violência e à capacidade de resposta das instituições.

Outros pontos de atenção são o potencial de mercado, a inovação e a formação de capital humano. A economia capixaba tem vantagens logísticas e industriais, mas precisa ampliar sua diversificação, estimular atividades de maior valor agregado e preparar trabalhadores para novas oportunidades.

O desafio do próximo governo será preservar os resultados positivos e concentrar esforços nas áreas em que o desempenho ainda está abaixo do potencial do Estado.

Saúde: ampliar o acesso e reduzir o tempo de espera

A saúde será um dos principais testes para a nova administração. Os dados do Tribunal de Contas do Estado relativos a 2025 mostram que, dos 100 indicadores previstos no Plano Estadual de Saúde 2024-2027, 42 tiveram as metas alcançadas, enquanto 55 ficaram abaixo do esperado.

Entre os pontos positivos estão a cobertura da Estratégia Saúde da Família, que chegou a 95,81% da população, e melhorias em áreas como cirurgias eletivas e regulação assistencial.

Por outro lado, permanecem dificuldades na prevenção de doenças crônicas, no diagnóstico precoce, no atendimento materno-infantil e no acesso ao tratamento oncológico. Pouco mais da metade dos pacientes iniciou o tratamento contra o câncer dentro do prazo legal de até 60 dias, segundo o levantamento do TCE-ES.

O quadro mostra que a ampliação de recursos precisa ser acompanhada por metas de desempenho, capacidade de atendimento e fiscalização dos resultados.

Para o novo governo, será necessário avaliar a distribuição de especialistas, a oferta de exames, o funcionamento da regulação e a estrutura hospitalar, além de fortalecer a cooperação com os municípios.

Educação: metas não alcançadas exigem atenção

A educação também apresenta uma combinação de avanços e dificuldades.

No acompanhamento do Plano Estadual de Educação 2015-2025, o Tribunal de Contas identificou 22 indicadores monitorados, dos quais apenas seis tiveram as metas alcançadas, enquanto 16 ficaram abaixo do esperado.

O Estado registrou avanços na educação profissional, em ações de alfabetização e na colaboração com os municípios. Ainda assim, permanecem desafios no acesso à educação infantil e ao ensino médio, na aprendizagem, na formação de jovens e adultos e na valorização dos profissionais.

Os números indicam que a boa posição do Espírito Santo em alguns rankings educacionais não elimina a necessidade de avançar em objetivos específicos.

Pazolini terá de avaliar a continuidade das políticas existentes, identificar os programas com melhores resultados e estabelecer mecanismos de acompanhamento para evitar que metas educacionais permaneçam apenas no planejamento.

Segurança pública: o maior desafio entre os indicadores

A segurança pública deve ocupar posição central na agenda do novo governador. Além da colocação desfavorável no ranking do CLP, o Estado precisa manter os avanços registrados na redução de mortes violentas e enfrentar problemas que afetam a sensação de segurança da população.

O Tribunal de Contas identificou avanços na redução de homicídios e feminicídios em 2025, mas também apontou o crescimento de registros de estelionato e fraude, o aumento do índice de fatalidade no trânsito e dificuldades relacionadas à estrutura de delegacias e ao preenchimento de vagas na Polícia Civil.

Pazolini chega ao Palácio Anchieta com experiência anterior como delegado da Polícia Civil e com a segurança entre os temas centrais de sua trajetória política. Durante a campanha, defendeu o uso de tecnologia e inteligência no monitoramento da criminalidade.

A experiência pode ajudar na formulação de políticas, mas o resultado dependerá da execução: integração entre as forças de segurança, investigação, prevenção, estrutura operacional e acompanhamento transparente dos indicadores.

O governo também precisará garantir que os recursos destinados à proteção das mulheres, à prevenção da violência e ao atendimento das vítimas sejam efetivamente executados.

Desenvolvimento regional: fazer os investimentos chegarem a todo o Estado

Outro desafio será distribuir os benefícios do desenvolvimento de maneira mais equilibrada.

O Espírito Santo reúne atividades industriais, portuárias, comerciais e agrícolas, além de uma posição logística estratégica. Entretanto, a capacidade econômica não se traduz automaticamente em oportunidades equivalentes para todos os municípios.

A concentração de serviços especializados, empregos e investimentos em determinados centros urbanos pode ampliar as diferenças entre regiões.

Ao falar sobre seus planos após a vitória, Pazolini defendeu a continuidade de obras em andamento, a avaliação de programas existentes e a construção de diálogo com prefeitos, deputados estaduais, vereadores e representantes da sociedade civil. Também afirmou que pretende trabalhar para que as melhorias alcancem todas as regiões capixabas.

A proposta exigirá planejamento, definição de prioridades e critérios transparentes para a distribuição de investimentos. A cooperação com as prefeituras será essencial para melhorar estradas, ampliar o saneamento, fortalecer a saúde regional e estimular a geração de empregos fora dos principais centros econômicos.

O que Pazolini encontrará ao assumir o governo?

O novo governador deverá assumir o Executivo estadual em janeiro de 2027, após o processo de transição. Até lá, a equipe terá de analisar contratos, obras em andamento, compromissos orçamentários, programas públicos, indicadores de desempenho e a situação dos órgãos estaduais.

A transição será especialmente importante para separar três questões: o que precisa continuar, o que deve ser aperfeiçoado e o que exige mudança de estratégia.

Na área fiscal, a prioridade será preservar a capacidade de investimento e monitorar riscos ligados à arrecadação de petróleo e commodities, à previdência estadual e aos benefícios fiscais. Em parecer sobre as contas de 2025, o Ministério Público de Contas recomendou a aprovação das contas do governo, mas apontou alertas sobre sustentabilidade fiscal, renúncias de receita e resultados de políticas públicas.

Na gestão, o desafio será converter recursos e estruturas existentes em serviços mais eficientes. Na política, será necessário construir uma relação funcional com a Assembleia Legislativa e com os municípios, sem depender exclusivamente dos alinhamentos partidários da eleição.

O governo também precisará definir como pretende acompanhar suas prioridades, divulgar metas e prestar contas dos resultados à população.

Um governo com condições para avançar, mas sem garantia de resultados

O Espírito Santo não começa uma nova gestão em situação de fragilidade fiscal. Pelo contrário, os números indicam uma administração com capacidade de investimento, reservas financeiras e bons resultados em importantes indicadores de competitividade.

O problema central é outro: como transformar essas vantagens em melhorias mais amplas e perceptíveis na vida dos capixabas.

Pazolini venceu uma disputa na qual seu adversário contava com uma ampla rede de apoio entre prefeitos e lideranças políticas. A vitória demonstra força eleitoral, mas não garante, por si só, a construção de uma base administrativa capaz de sustentar todas as prioridades do governo.

O novo governador terá de conciliar responsabilidade fiscal, capacidade de negociação e foco em resultados. Também precisará demonstrar que as diferenças políticas não impedirão a cooperação entre Estado e municípios.

O Espírito Santo entrega a Pazolini uma base fiscal sólida e instrumentos estratégicos para investir. Em contrapartida, cobra avanços em segurança, saúde, educação e desenvolvimento regional. O principal teste de seu governo será transformar a boa posição nas contas públicas e nos rankings em resultados concretos para a população.

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