A novela do Senado: Meneguelli tem a palavra do partido, mas age como quem espera a rasteira

Sérgio Meneguelli diz que tem a garantia do PSD. A palavra foi dada pelo presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab, e reafirmada pelo presidente estadual, Renzo Vasconcelos. Em tese, a pré-candidatura ao Senado estaria assegurada.
Mas, na prática, o discurso do deputado estadual revela outro sentimento: o de quem acredita que a história pode se repetir.
Nos últimos dias, Meneguelli passou a afirmar publicamente que estão tentando fazer com ele o mesmo que aconteceu em 2022, quando viu escapar a candidatura ao Senado na reta final das articulações políticas. A declaração chama atenção justamente por partir de alguém que, ao mesmo tempo, diz confiar plenamente na direção do próprio partido.
Afinal, se o compromisso está firmado, quem estaria tentando mudar as regras do jogo?
A resposta parece estar nos bastidores.
As conversas para a formação de uma grande aliança de centro e de direita colocaram a disputa pelo Senado no centro das negociações. Com apenas duas vagas em jogo e diversos pretendentes de peso, qualquer composição para o Governo do Estado inevitavelmente mexe no tabuleiro.
É nesse cenário que Meneguelli passou a subir o tom. Em entrevistas, afirmou que há grupos políticos tentando influenciar decisões dentro do PSD e que não aceitará reviver o roteiro de quatro anos atrás.
O discurso, porém, levanta uma questão inevitável.
Se Kassab e Renzo continuam sustentando publicamente sua pré-candidatura, por que a necessidade de alertar, quase diariamente, sobre uma possível traição?
Talvez porque, na política, palavra empenhada nem sempre significa decisão consolidada.
Ou talvez porque Meneguelli saiba que acordos feitos meses antes da convenção costumam ser reescritos quando as alianças começam a valer mais do que as promessas.
Enquanto isso, o deputado endurece sua posição.
Já avisou que não será candidato a deputado estadual, nem a deputado federal. Ou disputa o Senado ou, segundo ele próprio, ficará fora da eleição.
A estratégia tem um objetivo evidente: aumentar o custo político de qualquer mudança de planos. Se o PSD decidir recuar, não poderá alegar que havia outra alternativa para acomodar Meneguelli.
Mas essa postura também transforma sua candidatura em um teste de credibilidade para o próprio partido.
Se o compromisso for mantido, o PSD mostrará que sua palavra prevalece sobre as pressões externas.
Se não for, a comparação com 2022 deixará de ser apenas um temor e passará a ser um fato político.
Enquanto isso, os bastidores seguem produzindo um roteiro digno de novela. A cada nova entrevista, Meneguelli reafirma confiar na direção do PSD. Na frase seguinte, alerta que estão tentando tirá-lo do caminho.
É um paradoxo curioso.
Ou a palavra do partido vale, ou as articulações dos bastidores falam mais alto.
As duas coisas, ao mesmo tempo, dificilmente permanecem de pé até a convenção.
